Decidi que nunca mais vou girar as catracas da entrada da universidade. Todos os dias, vou pulá-las como se brincasse de pula-sela, de atravessar garupas, imitar cangurus ou qualquer analogia que o valha.
Me explico.
Uma catraca serve para limitar a entrada e saída de alguém em algum lugar. Lembra do Playcenter? A entrada para o gigantesco parque é limitada por uma imensidão de catracas mágicas, uma do lado da outra. Você compra o passaporte da alegria e se enfia parque adentro. Ainda nos brinquedos, é preciso se organizar em filas e passar por novas catracas. No metrô e nos ônibus, também; afinal, transporte público não é gratuito.
Mas a faculdade não é um parque de diversões e nem um veículo coletivo. Por que elas têm catracas?
Bem, os cartazes da universidade dizem que é para a nossa própria segurança (ô, papo paranóico!) e comodidade (essa eu não conseguiria explicar. Afinal, as catracas atrasam tudo).
Contudo, me parece que a verdade - sempre posta por detrás de um marketing quase nonsense das mercadorias - é outra. Me parece que as catracas existem para que se possa limitar a entrada e saída de alguém da universidade - no caso, mais a entrada do que a saída. É que a saída é consequência da entrada, hehe, então não dá pra evitar falarmos dela.
Vamos lembrar o dia em que as catracas começaram a chegar nas universidades. Na Unisantos, por exemplo ,que é o habitat onde eu as pulo. Lá, elas chegaram como quem não quer nada - e até agora nao se entende muito bem porque elas existem, porque elas não servem pra absolutamente nada.
Mas vão servir.
Na UNIP, já servem. Na Unisanta, já servem. Em São Paulo, em universidades como a FAAP, por exemplo, elas servem pra muita coisa. Até para responder a chamada por você.
As catracas existem para fazer com que estudantes inadimplentes não possam entrar dentro da universidade. É.
Elas barram o estudante que não se rematriculou.
Elas apitam e ele precisa ir até a secretaria se explicar.
Elas apitam e te deixam puto feito o diabo, mais atrasado do que já está e com vontade de socar o coitado do segurança e da atendente. |
Tente sair com uma revista da banca de jornais, ou com um punhado de chocolates de uma daquelas .lojas com cheiro maravilhoso como a Kopenhagen.
Tente sair com uma TV de plasma das Casas Bahia.
Dentro da própria universidade: tente sair com um livro da livraria, ou esticar o braço, atravessar o balcão e levar um salgado da cantina sem pagar. A regra básica do comércio de mercadorias é essa: alguém paga e outro alguém vende. Alguém é dono de uma mercadoria e quer vendê-la. Alguém que queira esta mercadoria e tenha dinheiro pra adquiri-la pode levar quantas quiser, contanto que troque uma quantia adequada de dinheiro pelas mercadorias.
Isso se aplica a shopping-centers, supermercados, pastelarias, lojas de calçados, sex-shops, casas de jóias finas, restaurantes nordestinos, empórios árabes, sorveterias, pipoqueiros, mecânicos, vendedores de filtros de água. Se estivéssemos falando especificamente sobre uma concessionária de carros, é claro que entenderíamos perfeitamente que é impossível sair de lá com um belo carro silencioso e potente sem comprovação de renda e um parcelamento interminável para a vida toda. Mas, não estamos falando de uma concessionária. Estamos falando de universidades.
E isso não se aplica a universidade. Uma universidade não é um comércio e educação não é mercadoria.
Quem diz isso não sou eu ou o movimento estudantil - e isso não é mera frase de efeito. Quem diz isso é a Constituição Federal.
Quem diz isso é qualuqer
Comecei dizendo que nuncam ais vou rodar as catracas da universidade. Vou pulá-la todos os dias, a não ser que esteja com a perna quebrada ou fique paralítico. É um modo de protestar simbolicamente em solidariedade a todos os que não conseguiram e não vão conseguir se matricular em algum semestre da universidade. Não estou propondo um movimento organizado pula-catraca nem nada - o melhor seria removê-las dali, ou lutar por um monte de outras coisas que podem transformar a catraca em algo obsoleto.
Mas, eu simplesmente não consigo enfrentar a idéia de girar aquelas catracas nunca mais. |