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Na pequena escada de entrada do CES, um menino reclama de dor no pé. Um caco de vidro cravara-se em sua sola direita. Contudo, ele não parece incomodado e, logo que o sangue estanca (com a ajuda de uma menina um band-aid), volta a trabalhar, esfregando o chão para retirar o limo do corredor externo da casa. Junto dele, outros 11 meninos e meninas dividem as tarefas do mutirão.
Este é uma cena comum nas ações de reconstrução do Centro dos Estudantes de Santos. Desde agosto do ano passado, nós, estudantes, estamos trabalhando na reforma da sede da entidade. O histórico casarão, situado na Avenida Ana Costa e em posse dos estudantes há mais de meio século, já fora palco das primeiras peças e ensaios de Plínio Marcos (quando ainda era vivo!) e esconderijo para militantes revolucionários no período da ditadura. Nos últimos anos, contudo, a casa deixou de ser um espaço alternativo de convivência e produção da juventude, para se transformar em mero galpão de “entulho político” variado. Era lixo pra tudo quanto é lado: sobras de campanhas de prefeitura, adesivos, faixas, roupas, colchões, comida apodrecida há 3 anos, apetrechos de cozinha, tijolos, sapatos, computadores oxidados, conchas de sorveteria, canudinhos, espirais, papelão… Salas com 40, 50 centímetros de lixo revirado. Quase não havia luz e um cheiro de esgoto aberto impregnava metade da casa. Este era o cenário que enfrentávamos na sede até três meses atrás. O abandono político da entidade podia ser percebido olhando para o velho edifício na Encruzilhada da cidade.
Já se somam seis meses de trabalho voluntário negando esta escuridão. Seis meses limpando a casa abandonada, melhorando sua infra-estrutura, instalando lâmpadas e ponto de luz, desentupindo ralos, melhorando a segurança, pintando, pendurando quadros e fotografias… |
Um trabalho que transforma não somente os meninos e meninas que ali dividem tarefas de reforma e melhoria da sede, conhecendo aos outros e a si próprios, enfrentando opiniões distintas, dividindo experiências, conhecimento, lanches e jogos de futebol nos fundos da sede; esta reconstrução compartilhada da sede também vem transformando o CES em área coletiva de uso, produção de conhecimento material e intelectual, e em um espaço de formação e articulação anti-capitalista!
Dessa maneira, a sede do CES tem se transformado em uma casa solidária para o Comitê de lutas da Baixada Santista; para os saraus do Centro Acadêmico de Serviço Social da Unisantos; para os grupos políticos sem sede da cidade, para o MAR - movimento de oposição ao Centro Acadêmico de Direito da Unisantos; para atividades do Educafro; para os músicos de hardcore; para os entusiastas do cinema; para o DCE da Unisantos; para grupos de estudo como o Espaço Marx e o Círculo de Leitura Florestan Fernandes; para testes de transmissão de Rádio Livre dos ambientalistas, para os vegetarianos, para festas de ska, indie, reggae, HC…
Todos os coletivos que assumam para si a tarefa de querer transformar o mundo têm espaço nesta casa. E é isto que anunciamos: portas abertas, janelas abertas, pra que entrem todos! Não é mais possível permitir que a condição de vida da casa do CES esteja submetida meramente aos interesses das direções que para ele se elegem, sob vontades variadas, a cada dois anos, nos congressos da entidade. |